Quem em sã consciência, nos dias de hoje, se questionado: "Você sabe para que serve um caderno?", responderia: "Não faço ideia!". Suponhemos, entretanto, que essa pessoa exista, e, assim como um inocente bebê, não faça ideia de como um caderno funcione.
Pensemos na experiência mágica que seria para esse ser encontrar um caderno em cima de um móvel de sua casa e ver que, ali, há duas ou três páginas escritas com o começo do que parece ser uma
interessante história. Esse ser procura nas outras páginas a continuação, contudo não a encontra, todas as outras páginas estão em branco. Então, ele devolve o caderno ao lugar que o achou e vai fazer suas tarefas diárias, até dormir.
interessante história. Esse ser procura nas outras páginas a continuação, contudo não a encontra, todas as outras páginas estão em branco. Então, ele devolve o caderno ao lugar que o achou e vai fazer suas tarefas diárias, até dormir.
No outro dia, a primeira coisa que ele faz é conferir o caderno, e adivinhem, nele há mais páginas escritas. "Mas como? Como pode ter isso acontecido?", pensa o pobre ser embelezado com tamanho fato sobrenatural. O homem acredita que alguma força invisível, vinda do nada e indo além dele, está grafando com sua sobrenatural força cada letra naquelas folhas.
Passam-se mais três dias e o homem cria a certeza de que aquele caderno ou é mágico, ou é escrito por uma força maior. Algo, contudo, não está certo, as linhas escritas começaram a reduzir-se em quantidade. "Meu Senhor precisa de algo para anima-lo a escrever. "Deixarei alguns alimentos para dar força a suas mãos, e velas para iluminarem suas ideias.", refletiu aquela pobre alma, e assim o fez.
Aquele caderno tornará-se uma obsessão para o homem, todo dia ele fazia suas coisas normais, mas criava sempre uma ansiedade, uma necessidade, de estar presente junto ao caderno escrito por seu Senhor imaginário. O Caderno era mais importante que outras coisas, seu Senhor tinha uma mensagem a passar e suas oferendas eram as únicas coisas que manteriam-no com força nesse plano terreno.
Uma noite quado aquele energúmeno ser acabara de fazer a oferenda e dirigia-se a seu quarto, ouviu em sua mente uma voz que falou em alto e bom som: "Filho meu, que tão bem servido me tens, hoje conhecerás minha face. Vai até o caderno e espera por mim em um canto escuro para que eu não te veja".
Ouvindo isso, o coração do homem disparou, ele regozijou-se por completo, o momento pelo qual ele tanto esperou finalmente se concretizaria. Como mandado pela voz, ele foi e escondeu-se nas sombras e esperou. Alguns poucos minutos depois, o filho mais velho desse homem surgiu e dirigiu-se ao caderno, pegou-o e sentou-se a mesa com uma caneta na mão a escrever.
"Que faz meu filho com aquele instrumento? Ousará ele profanar dessa forma o caderno de meu Senhor?", inquietou-se o homem em seu lugar, mas não de forma que se deixasse perceber. Na sua mente então novamente a voz veio a seu encontro: "Filho meu, teu filho quer destruir minha obra. Vai e para-o de qualquer forma!".
Sem por um único instante exitar ou refletir sobre o assunto, o homem ergue-se e caminhou ferozmente em diração ao filho.
- Pai! - Exclamou com veemência o filho. - O que fazes aqui? Não deverias estar aqui!
- Muito menos você, seu herege!
Com a força de 1000 cavalos o homem ergueu uma cadeira e desceu sem nem pestanejar sobre o seu pobre filho. O garoto morreu na hora com um profundo ferimento na cabeça, não havia mais salvação para ele. O pai então deixou-o lá, sem olhar de remorso, sem compaixão, apenas apanhou o caderno e o pôs de volta no "altar". Foi então para sua cama e dormiu como se nada tivesse acontecido.
No outro dia o corpo de seu filho ainda estendia-se pálido sobre seu próprio sangue. O homem analisou o caderno, mas nele encontrou apenas as últimas palavras que seu filho havia escrito. Irônico foi a falta de percepção causada pela fé cega daquele homem, o que não o permitiu perceber que tudo que havia escrito no caderno, incluindo as últimas frases, eram todas feitas com a mesma fonte: a letra de seu filho.
- Seu inútil! Você profanou o caderno e meu Senhor não veio deixar a continuação de seu linda história para mim. O que farei agora? Como irei me redimir? - O homem chorou, não por ter matado o filho, mas por não poder continuar a ler aquela história, baixou a cabeça e fitou a mesa onde seu filho estivera sentado.
Quando o fez, viu que havia um envelope em cima da mesa, por curiosidade, ou pelo pouco de pai que restou nele desde a última noite, resolveu ver o que havia dentro. Estranhamente estava com seu nome escrito, seguido da frase: "Grande Homem, Melhor Pai". O que quer que ali houvesse era para ele, e ele leu.
"Pai, você é incrível. Mantêm essa família toda, e eu sei o quanto trabalhas para isso, mesmo eu raramente o vendo. Esse caderno é um presente para seu aniversário que estou fazendo, construindo com aquilo que faço de melhor, sonhar.
"Eu pensei em desistir dele assim que o comecei, mas quando vi as 'oferendas' que estavas me deixando, fiquei feliz e inspirado a continuar, obrigado por acreditar em mim.
"Hoje farei o último capítulo, espero que gostes.
"Com amor, seu Filho 'Fantasma'".
O homem não sabia o que fazer. O que acabora de acontecer ali não lhe fazia sentido. Seu Senhor era seu filho? Não havia uma mão mágica escrevendo naquele caderno? Não havia uma mensagem de fé? Não nada jamais chegou a existir. Aquele pobre homem queria era sedento por acreditar em algo, prendeu-se a fé cega de que um ser invisível estava escrevendo coisas especiais para ele, mas na verdade era apenas seu filho que queria presenteá-lo.
Nada mais fazia sentido, seu filho morrera, ele não tinha mais certeza de nada, o desespero começou a tomar conta de seu ser. O medo e tudo o mais veio como um balde de água fria em sua cabeça. Ele não poderia viver com essas dúvidas. Correu à cozinha e enterrou uma faca em seu coração com a mesma força que matara o seu filho na outra noite. Então tudo tornou-se sombras, e depois cinzas, depois luz, e por fim cores.
- Pai! Não esperava te ver aqui tão rápido assim.
- Onde estamos meu filho?
- Aqui? Nenhuma lugar em especial, apenas a continuação do que não podemos ser na terra.
- Então aqui é o paraíso?
- Não pai, é apenas a continuação, não será mais fácil que antes, apenas diferente.
- Filho, por favor, me perdoe...
- Já perdoei pai. Não o culpo por sua fé cega ou sua ignorância de não entender as coisas, mas fico feliz por terdes aprendido a lição. Só espero que nunca mais nínguem se machuque como eu e você por causa de fé cega e intolerância.
- Também espero meu filho, também espero...
Arthur Hudson, 30/12/2014 05:00
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