Há um tempo fiz um texto chamado Subconjuntos Musicais, nele dividi a música em três subconjuntos não nomeados. Num deles encontram-se as músicas que procuram trazer uma mensagem para quem houve, aquelas que fazem parte da história.
Hoje (03/01/2015), ouvi a música "O Resto do Mundo" do Gabriel, O Pensador, onde há um trecho que diz "o meu sonho é morar numa favela, eu queria morar numa favela". Lembro que há alguns anos enquanto ouvia essa mesma música em casa de minha mãe, ela questionou-me enquanto rodava
o trecho acima citado: "Se ele quer morar em uma favela, então por que não vai?", entretanto, percebi que seu tom foi de sarcasmo, mas não fiz mal dela, pensei comigo: "Ela está dizendo isso porque pensa que a pessoa da história da música é uma pessoa bem de vida que está "zoando" com as pessoas da favela, dizendo que quer morar em uma".
O que ela não sabia, contudo, é que havia toda uma história por trás da música, eu pensei em citar aqui alguns trechos, mas a música toda em si é interessante, então a colorarei aqui:
"Eu queria morar numa favela, o meu sonho é morar numa favela.
Eu me chamo de excluído como alguém me chamou, mas pode me chamar do que quiser seu doutor.
Eu não tenho nome, eu não tenho identidade, eu não tenho nem certeza se eu sou gente de verdade.
Eu não tenho nada, mas gostaria de ter. Aproveita seu doutor e dá um trocado pra eu comer...
Eu gostaria de ter um pingo de orgulho, mas isso é impossível para quem come o entulho misturado com os ratos e com as baratas e com o papel higiênico usado nas latas de lixo, eu vivo como um bicho ou pior que isso.
Eu sou o resto, o resto do mundo. Eu sou mendigo, um indigente, um indigesto, um vagabundo. Eu sou.. Eu não sou ninguém
Eu to com fome, tenho que me alimentar. Eu posso não ter nome, mas o estômago tá lá, por isso eu tenho que ser cara-de-pau, ou eu peço dinheiro ou fico aqui passando mal. Tenho que me rebaixar a esse ponto porque a necessidade é maior do que a moral.
Eu sou sujo, eu sou feio, eu sou anti-social. Eu não posso aparecer na foto do cartão postal, porque pro rico e pro turista eu sou poluição.
Sei que sou um brasileiro, mas eu não sou cidadão. Eu não tenho dignidade ou um teto para morar e o meu banheiro é a rua e sem papel pra me limpar
Honra? Não tenho, eu já nasci sem ela, e o meu sonho é morar numa favela. Eu queria morar numa favela, o meu sonho é morar numa favela.
A minha vida é um pesadelo e eu não consigo acordar e eu não tenho perspectivas de sair do lugar. A minha sina é suportar viver abaixo do chão e ser um resto solitário esquecido na multidão.
Eu sou o resto, o resto do mundo. Eu sou mendigo, um indigente, um indigesto, um vagabundo. Eu sou o resto do mundo, eu não sou ninguém, eu não sou nada, eu não sou gente. Eu sou mendigo, um indigente, um indigesto, um vagabundo. Eu sou o resto, eu não sou ninguém.
Frustração, é o resumo do meu ser eu sou filho da miséria e o meu castigo é viver. Eu vejo gente nascendo com a vida ganha e eu não tenho uma chance. Deus, me diga por quê?
Eu sei que a maioria do Brasil é pobre, mas eu não chego a ser pobre eu sou podre! Um fracassado, mas não fui eu que fracassei, porque eu não pude tentar. Então que culpa eu terei quando eu me revoltar quebrar, queimar, matar? Não tenho nada a perder. Meu dia vai chegar. Será que vai chegar?
Mas por enquanto, eu sou o resto, o resto do mundo. Eu sou mendigo, um indigente, um indigesto, um vagabundo. Eu sou o resto do mundo, eu não sou ninguém, eu não sou nada, eu não sou gente, eu sou o resto do mundo. Eu sou mendigo, um indigente, um indigesto, um vagabundo. Eu sou o resto.
Eu não sou ninguém, eu não sou registrado, eu não sou batizado, eu não sou civilizado, eu não sou filho do Senhor.
Eu não sou computador, eu não sou consultado, eu não sou vacinado, contribuinte eu não sou.
Eu não sou comemorado, eu não sou considerado, eu não sou empregado, eu não sou consumidor.
Eu não sou amado, eu não sou respeitado, eu não sou perdoado, mas também sou pecador.
Eu não sou representado por ninguém. Eu não sou apresentado pra ninguém. Eu não sou convidade de ninguém e eu não posso ser visitado por ninguém.
Além da minha triste sobrevivência eu tento entender a razão da minha existência. Por que que eu nasci? Por que eu to aqui?
Um penetra no inferno sem lugar pra fugir. Vivo na solidão mas não tenho privacidade e não conheço a sensação de ter um lar de verdade.
Eu sei que eu não tenho ninguém pra dividir o barraco comigo, mas eu queria morar numa favela, amigo eu queria morar numa favela, o meu sonho é morar numa favela"
Longa a música, não? Não importa-me, deixe de preguiça e leia um pouco. O texto pode até ser longo, mas não chega nem perto da história real das pessoas que vivem nessa situação, todavia esse é assunto para outro texto. Agora quero continuar minha história. Como eu conhecia a letra da música, agora como você, que esse texto lê, tratei logo de explicar à minha mãe qual era a situação da música. Ela então parou por um tempo, refletiu e vi em sua feição a expressão de "Hm! Agora que olho por esse lado a música faz sentido".
Refletindo melhor sobre esse acontecido, vejo que ao pegarmos apenas um fragmento de alguma música que quer passar uma ideia, uma história, pode ser perigoso, ao causar interpretações equivocadas. Este é aquele mesmo velho dito de que, ao olhar para algo, não devemos nos apegar apenas à superfície, e sim tomar o todo para reflexão.
Esse é um problema que o "colocar música apenas para tocar", ao invés, de realmente escutá-la, pelo menos uma vez, causa. As pessoas sabem que certa música tem um certo trecho que significa uma certa coisa, contudo não fazem ideia do contexto geral em que está inserido. Um exemplo imaginário seria o trecho "eu estava andando nas nuvens", alguém que ouviu apenas esse trecho poderia pensar que o autor estaria se referindo a "viagem" provocada pela maconha, outro diria que o compositor está falando de uma experiência de quase morte, quando na realidade o compositor estava se referindo a sua experiência de pular de paraquedas pela primeira vez.
Sendo redundante, isso é causado pelo superficial "ouvimento" que algumas pessoas fazem de músicas que foram feitas para serem ouvidas do começo ao fim.
Apenas um comentário final, eu gosto de ouvir músicas do subconjunto que tem uma letra para se refletir sobre, uma mensagem a passar, então possivelmente farei mais textos referentes a esses assuntos, ou, até mesmo, interpretações próprias de músicas que achar interessantes.
Arthur Hudson, 03/01/2015 10:34
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